sábado, 6 de abril de 2013


Lucas Mendes: Pais surdos, filho falante


Drogado, criminoso, desequilibrado mental. Aí ele fez 16 anos. Este é o subtítulo do livro Kasher in the Rye, memórias do escritor e comediante Moshe Kasher. O título, como convém a um criminoso precoce, vem do livro The Catcher in the Rye, de J.D. Salinger, um clássico sobre angústia, alienação e rebelião de um jovem em Nova York, publicado em 1951. Neste, Kasher é uma autobiografia, não uma ficção. E ele conta tudo.

Aos 4 ou 5 anos Moshe sentiu vergonha da mãe pela primeira vez. Foi quando percebeu que o jeito dela falar era todo enrolado, como os surdos falam, diferentes das outras mães.
Desta época começou a revolta. Vinha de uma família de mulheres divorciadas havia quatro gerações e que detestavam homens. A avó, já velhinha, cuspia e amaldiçoava o marido de quem tinha se divorciado havia décadas.
Surdos gostam de encontrar outros surdos. A mãe levava Moshe para festas e eventos e ele se divertia com os peidos altos, comuns entre surdos, mas que despertavam mais rejeição do que compaixão.
Com os anos, as relações com a mãe e avó chegaram às vias de fato. Ele quebrava janelas, virava mesas, batia na mãe e ela reagia. Moshe diz que uma das poucas vantagens de ser filho de surdo é ouvir a música que você quiser no ultimo furo. No carro, com a mãe, ele ouvia hip hop com letras ofensivas e pornográficas, mas a mãe, que não ouvia, gostava porque sentia a “vibração” do baixo.
Ele era um judeu branco, magrelo, num bairro de negros parrudos de Oakland e logo se enturmou com a turma da pesada. Aos 12 tomava ácido todos os dias, fumava maconha e se embriagava. Vivia em crise nas escolas e a mãe era chamada pela direção. Como era surda, Moshe servia de intérprete do diretor: "Seu filho tem problemas seríssimos. Nos últimos meses faltou a 30% das aulas”.
Moshe traduzia com sinais de mão: "Seu filho tem alguns problemas, nada sério. Melhorou 30% com relação ao último semestre". Eventualmente descobriram o golpe e ele foi expulso de mais uma escola. Foram dezenas, e ele só conseguiu ser admitido numa outra onde era único aluno que não era doente mental.
As relações com o pai, que morava em Nova York, não envolviam agressões físicas, mas o afeto passava ao largo. Ele se recasou com uma judia hassídica da ala mais ortodoxa da seita e morava no Brooklyn. Todos se vestiam com o mesmo tipo de roupa, tinham os mesmos aparelhos domésticos e o mesmo modelo de carro, um Oldsmobile.
Cada vez que ia buscar os filhos no aeroporto, o pai ia direto com eles para um barbeiro, mandava aplicar um corte hassídico e colocava uma yamaka na cabeça dos dois. Em Oakland seriam o deboche do bairro.
Moshe a partir dos 5 anos de idade passou por todos os tipos de análise, individual, de grupo, com e sem família. Ia de mal a pior. O ódio dele que era concentrado na mãe e na avó se expandiu para todos os adultos.
Não sabe quantas vezes foi preso, mas foi parar nas clínicas de reabilitação, e a primeira instrução que davam a ele era a última coisa que faria na vida: abandonar os amigos. Eles eram tudo que ele tinha na vida. Comprar e consumir drogas pela manhã, passar o dia furtando e batendo em garotos mais fracos, se embriagar de noite.
Nas clínicas de reabilitação as sessões eram com psicólogos e com terapeutas que tinham se recuperado de drogas. O prazer de Moshe era fazer o adulto perder o controle até cair no universo dele, de insultos e gritos. Aí se sentia vitorioso. Até que encontrou um ex-alcoólatra que nunca perdeu a cabeça. Nas crises, dizia a Moshe que a dependência dele era uma doença que tinha cura. Um dia desmontou as agressões de rebelde com um abraço.
O escritor e comediante conta no livro que o abraço não foi um momento epifânico, que não houve um quase encontro com a morte numa overdose ou acidente, de quem chega um dia no fundo do poço e se salva, como nos filmes e também na maioria dos livros. O drogado, ele diz, já vive no fundo do poço, num tédio infernal que se repete todos os dias, a mais miserável das vidas.
“Numa tarde, a caminho do bar com minha turma, eu virei de costas, disse adeus, mudei de vida. Terminei o curso secundário, fiz faculdade, tenho bons amigos, boa relação com minha mãe e uma carreira promissora. O terapeuta que me deu o abraço que talvez tenha sido minha salvação teve uma recaída e morreu numa overdose", conta.

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